O que está acontecendo na França?
Foto: Jorge Jaramillo (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons, modificada.
Do protesto nos liceus à resposta do governo: o movimento estudantil que chegou às ruas e à eleição de 2027.
Há mais de um mês, estudantes de ensino médio bloqueiam liceus (as escolas de ensino médio da França) e vão às ruas em protestos que reuniram centenas de milhares de pessoas. O alvo principal é o Parcoursup, o sistema de seleção para o ensino superior, parecido com o Sisu brasileiro. O governo respondeu em 26 de outubro com um pacote de medidas, que ainda depende de votação no Parlamento. Esta matéria resume o que se sabe, com os números de cada lado.
Como começou
O movimento começou antes de outubro. Segundo a cronologia reunida pela Wikipédia francesa, ele surgiu em 31 de agosto em Mayotte, onde o liceu de Acoua ficou bloqueado por semanas, e chegou à França metropolitana em 18 de setembro, em um liceu de Créteil, perto de Paris. A partir daí os bloqueios se espalharam. Em 2 de outubro, um dos dias de pico, o Ministério do Interior contou 1.027 liceus envolvidos em algum tipo de mobilização, dos quais mais de 400 fechados, num total de cerca de 3.700.
Quais são as reivindicações
- Parcoursup. É a plataforma pela qual os estudantes se candidatam ao ensino superior. Os manifestantes pedem o fim do sistema. Segundo dados citados pela Wikipédia francesa, 163.372 candidatos (18%) terminaram a edição de 2026 sem nenhum pedido aceito em julho, contra 103.000 (11,9%) em 2025.
- Professores. Uma pesquisa do sindicato SNES, de setembro, com 1.033 estabelecimentos, apontou que 53% estavam sem ao menos um professor. O Ministério da Educação diz que 96,1% das vagas do ensino médio estão preenchidas.
- Prédios e turmas. Vazamentos, calor sem climatização e salas lotadas estão entre as queixas.
- Dinheiro. A União Sindical Lycéenne pede um plano de 10 bilhões de euros para os liceus.
A partir de 17 de outubro, as manifestações passaram a incluir também a pauta do custo de vida, segundo a imprensa francesa.
Os números das manifestações
Cada lado conta de um jeito. A tabela mostra o número do Ministério do Interior e o dos organizadores nos dias de mobilização nacional, segundo a cronologia da Wikipédia francesa.
| Dia | Ministério do Interior | Organizadores |
|---|---|---|
| 6 de outubro | 256.000 | 450.000 |
| 13 de outubro | 161.500 | 480.000 |
| 17 de outubro | 550.000 (110.000 em Paris) | 800.000 |
| 24 de outubro | 410.000 | mais de 800.000 (CGT) |
O que aconteceu em 17 de outubro
O sábado 17 de outubro, no início das férias escolares, foi o dia com mais manifestantes contados pelo Ministério do Interior. Houve tumultos e saques em várias cidades. Em Limoges, a prefeitura (o hôtel de ville), um prédio do século 19, foi incendiada durante confrontos e ficou em grande parte destruída, segundo a imprensa francesa. As investigações levaram à prisão de suspeitos nos dias seguintes. Segundo o balanço consolidado do ministro do Interior, Laurent Nuñez, divulgado em 18 de outubro, 2.397 pessoas foram detidas no sábado e 997 policiais e gendarmes ficaram feridos, sete deles gravemente. Ao longo das semanas, os balanços do governo somam milhares de detenções, em sua maioria de menores de idade, e o balanço do primeiro-ministro de 14 de outubro, citado pela Wikipédia francesa, já contava 248 alunos feridos, além de 937 policiais e 149 funcionários da educação.
A resposta do governo
Em 26 de outubro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu recebeu organizações de jovens em Matignon, a sede do governo, e os ministros detalharam as medidas:
- Parcoursup: mantido em 2027, com mudanças para dar mais transparência, e substituído por um novo sistema em 2028.
- Turmas: teto de 28 alunos na seconde (o primeiro ano do ensino médio), de forma escalonada: em parte dos liceus em 2027 e em todos em 2028.
- Ensino superior: 15 mil vagas novas entre 2027 e 2028 (10 mil em cursos de BTS, 4 mil em BUT e mil na área de saúde).
- Bolsas: passam a ser indexadas à inflação.
- Prédios e outros itens: 4 bilhões de euros em empréstimos de longo prazo, a taxas reduzidas, para as regiões, que cuidam dos liceus, até 2030, além de 1 bilhão para universidades e mais professores e enfermeiros.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, estimou que os anúncios custarão "cinco ou seis bilhões de euros" no total. Segundo o cálculo do Public Sénat, o impacto no orçamento de 2027 é de cerca de 1,35 bilhão de euros, sendo 350 milhões de gasto e 1 bilhão em empréstimos. Parte das medidas ainda depende de votação no Parlamento, em especial por meio de emendas ao orçamento de 2027.
O contexto político
O governo Lecornu não tem maioria absoluta na Assembleia. O orçamento de 2027 prevê um esforço de cerca de 54 bilhões de euros em economia, anunciado em 17 de setembro. As organizações estudantis e os sindicatos convocaram novos atos para 31 de outubro e 5 de novembro, com reservas sobre as medidas anunciadas.
Por que isso importa para a eleição
A eleição presidencial francesa será em dois turnos, em 18 de abril e 2 de maio de 2027. A partir de 31 de outubro, faltam 169 dias para o primeiro turno. O movimento acontece, portanto, a menos de seis meses da votação, e o desfecho das negociações e do orçamento pode entrar no debate eleitoral.
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Criar conta grátisPerguntas frequentes
O que é o Parcoursup?
É a plataforma pela qual os estudantes franceses se candidatam ao ensino superior. É parecida com o Sisu brasileiro, que também distribui vagas do ensino superior.
O que o governo prometeu em 26 de outubro?
Substituir o Parcoursup em 2028, limitar as turmas de seconde a 28 alunos, abrir 15 mil vagas no ensino superior, indexar as bolsas à inflação e oferecer 4 bilhões de euros em empréstimos às regiões para os prédios. O ministro da Educação estimou o custo total em cinco ou seis bilhões de euros. Parte das medidas ainda depende do Parlamento.
Quando são as próximas manifestações?
Estão convocadas para 31 de outubro e 5 de novembro.
Quando é a eleição presidencial na França?
O primeiro turno será em 18 de abril de 2027 e o segundo, em 2 de maio de 2027. Fontes: Wikipédia francesa, mouvement lycéen et étudiant de 2026 (cronologia e números); Brut e Thotis (anúncios de 26/10); Public Sénat (custo), ICI (17 de outubro), France Épargne e Banque des Territoires (pacote); Sud Radio (Limoges); ICI (balanço de 17 de outubro); Public Sénat (orçamento) e Service Public (datas da eleição).